Um novo tempo

Por Carlos Loureiro, 29 de Setembro de 2018

Compartilhe o conteúdo!

Quando falo em inovação, todo mundo pensa em tecnologia. Basta digitar a palavra “inovação” no Google para confirmar a impressão generalizada que há no país. Faz sentido: hoje o antigo Ministério da Ciência se chama Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Desde 2016, temos a Lei 13.243, que “dispõe sobre estímulos ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação científica e tecnológica e à inovação”. Esse apelo todo às inovações tecnológicas é positivo, mas, infelizmente, tira o foco daquele que é o motivo para inovar e o autor da inovação: o ser humano.

O ser humano deve ser o foco inicial e principal da inovação. Por acreditar nisso, propus ao Comitê de Gestão de Pessoas da Associação de Ex-Alunos da Fundação Getúlio Vargas que inserisse o assunto como um dos temas do último encontro, realizado no dia 24 de setembro de 2018. Assim, no jantar para mais de 40 pessoas no hotel Prodigy, em São Paulo, o prato principal foi a reflexão sobre o ser humano no processo de inovação, seguindo a linha filosófica do livro Overcrowded, do Professor Roberto Verganti.

Roberto Verganti, a quem a Pieracciani tem a honra de representar no Brasil, é professor da Universidade Politécnica de Milão e professor visitante na Harvard Business School. Para ele, o mundo está cheio de ideias, mas carente de visões significativas. O planeta, segundo ele, precisa de algo muito simples: uma visão singular e única que seja capaz de provocar reflexões baseadas na seguinte pergunta:

“O que amaríamos que as pessoas amassem?”

Durante o encontro, quando propus aos participantes essa simples pergunta, as respostas foram as mais diversas. Para o Professor Verganti, neste mundo repleto de ideias, a inovação só é válida se trouxer significados para a vida das pessoas e prazer para quem a fez. É como presentear alguém com algo que possa aliviar a dor e abrir novas oportunidades.

Nas mais de quatro décadas que passei no mercado corporativo, vi muitas mudanças que traziam em seu bojo a pretensão e intenção de desencadear novas “ondas de cultura” nas empresas; no entanto, raramente o foco estava nas pessoas. E são elas que importam. Mais uma vez, defendo que a inovação tem que estar a serviço das pessoas e de seus propósitos. Ela tem que gerar novos significados, fazer com que as pessoas se apaixonem.

Agora que até os grandes veículos de imprensa têm editorias de inovação e a cada dia surgem novos cursos e metodologias, vemos o quanto ela é necessária quando é ressignificada. E isso só é possível se educarmos o olhar para as pessoas e não para os produtos. A pergunta agora não deve ser mais como e sim por quê.

Um dos casos que o Professor Verganti aborda no livro, sobre o mercado de velas, me fez voltar a ser menino no subúrbio carioca, onde era comum faltar energia. Mamãe, como a mãe de Verganti, nunca deixou faltar velas, que ficavam sempre na última gaveta de algum móvel da casa. Cera e pavio, juntos, também tinham outra utilização nos lares do Rio de Janeiro: devoção. Afinal, quem nunca acendeu uma vela para São Jorge ou para seu santo de fé?

Com os avanços tecnológicos e apagões cada vez mais raros, a indústria de velas estaria fadada ao fracasso. Mas, graças a uma simples mudança no mindset, as vendas de velas tiveram um crescimento exponencial sem que fosse preciso investir praticamente nada em tecnologia. Hoje, a indústria americana de velas movimenta cerca de 3,2 bilhões de dólares por ano. De cada dez lares nos Estados Unidos, sete têm o hábito de comprar esse produto. O que mudou não foi a forma de uso, mas o porquê: com um pouco de corante e essências aromáticas, as velas ganharam outra conotação. Deixaram, basicamente, de ser emergenciais ou devocionais e passaram a acrescentar glamour em um bom banho de banheira, jantares românticos e até mesmo na decoração de casamentos.

Todo esse movimento de mercado teve origem em uma pergunta: por quê?

Por que as pessoas consomem velas? Como elas podem consumir mais? E que novo significado as velas podem ter para as pessoas?

A partir de reflexões como essas o mercado de velas sobreviveu e cresceu. As pessoas compram mais velas do que nunca, não por precaução contra quedas de energia, nem por razões religiosas, não porque iluminam melhor ou duram mais. Elas as compram porque criam um calor emocional em casa, porque são significativas, porque as pessoas as amam. O propósito das velas mudou radicalmente, arremata Verganti.

É por isso que, quando penso em inovação, eu penso em gente. A palavra me traz à cabeça pessoas, não números. Porém, a cultura atual de inovação enxerga as pessoas como depósitos de problemas que devem ser solucionados. Na inovação radical, o foco está em oferecer a elas produtos e serviços com novos significados e não só fazer mais do mesmo.

O potencial humano é infinito. Não há máquina capaz de superar nossa capacidade de sobreviver em meio às adversidades. E, sem dúvida, 2018 é um ano marcado por elas; o melhor exemplo é a falta de rumo na política e na economia. É um ano em que estamos num voo cego, sem condições de prever nem mesmo o que acontecerá após as eleições.

Entretanto, é também um período de oportunidades e quebra de paradigmas que serão capazes de nos levar a outro entendimento da cultura corporativa. Nesse cenário, os departamentos de recursos humanos têm as melhores ferramentas e condições para catalisar mudanças. Uma delas é que a inovação não pertence a um setor ou a outro: ela deve fazer parte da cultura das organizações e estar espalhada horizontalmente por todas as áreas da empresa. Do jurídico ao almoxarifado, todos somos responsáveis por inovar.

A experiência da Pieracciani prova isso: nestes 26 anos, temos inúmeros cases de sucesso em áreas tão diversas quanto planejamento da logística de portos e criação de sistemas internos de empresas de construção de grande porte, passando pelos segmentos editorial, automobilístico e hospitalar, entre outros. Sempre deixando a nossa marca de inovação. Sempre, invariavelmente, com foco em gente. Gente que faz a diferença.

E inovar é produzir resultados para as pessoas. Por essa razão, é possível acreditar e ter esperanças. Mesmo em um mundo que se transforma em velocidade crescente, estamos debatendo sobre o caos que antecederá uma onda de prosperidade, pois a inovação é um dos melhores caminhos para crescer com resultado. Assim, deixo as palavras proféticas que Ivan Lins escreveu em 1980 e têm tanto em comum com nosso diálogo sobre inovação:

“No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
No novo tempo, apesar dos castigos
De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados
Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver
No novo tempo, apesar dos castigos
Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas
Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer
No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça”

*Carlos Loureiro é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas.


Carlos Loureiro

Carlos Loureiro

Sócio-diretor da Pieracciani

Economista, foi durante 16 anos Executivo das Organizações Globo, com uma grande experiência no mercado corporativo, reúne e domina o pragmatismo da gestão diária dos negócios com o desenvolvimento de soluções empresariais inovadoras. Atualmente dirige a Unidade de Educação da Pieracciani.

conteÚdos relacionados

Espaço dedicado para promover a inovação e co-criação de soluções baseadas em tecnologias emergentes, como Internet das[...]

Saiba mais
Oracle abre laboratório de inovação em Brasília

Visando modernizar as instituições de ensino superior privadas, o governo lançou o programa de Ação de Fomento à Inovação em Educa

Saiba mais
Finep disponibiliza R$ 500 milhões para projetos de inovação em educação

No último dia 02 de outubro de 2018, durante o 3º Workshop do Sistema de Laboratórios em Nanotecnologia (SisNano)[...]

Saiba mais
Nanotecnologia é tratada como prioridade para MCTIC e FINEP

A questão de que há pessoas que não são criativas é um grande mito! A criatividade, assim como qualquer outra competência[...]

Saiba mais
Saiba como estimular ainda mais sua criatividade!